O que é IFRS ? Entenda sua evolução e relação com os grandes eventos econômicos das últimas 5 décadas

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Em uma visão bem macro, o principal objetivo do IFRS (International Financial Reporting Standard) é manter a estabilidade e transparência das informações financeiras ao redor do mundo. Isso permite que investidores, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas, tomem decisões financeiras de forma consciente, pois com o advento do IFRS, eles são capazes de ver exatamente o que está acontecendo na Empresa a qual eles desejam investir, mesmo que ela esteja do outro lado do mundo.

Mas onde e quando o IFRS nasceu e quais fatores favoreceram e impulsionaram sua popularização e aderência ?

Antes de falar sobre a história do IFRS, é importante entender a ligação que existe entre a Contabilidade e a Economia. Eu costumo dizer que “Contabilidade e Economia estão ligados por um cordão umbilical”. O que eu quero dizer com isso ? Todas as mudanças e evoluções que ocorreram na contabilidade nas últimas décadas tem relação direta e são reflexos dos grandes eventos econômicos. Certamente um grande fenômeno econômico que vem ocorrendo ao longo dos últimos 50 anos é a globalização e essa certamente é a mola propulsora da mudança de diversas ciências, não só a contábil. Além da Globalização, que outros fatores econômicos acabaram impulsionando a aderência do IFRS ao redor do mundo ? Bom, vamos entender de forma sumária e objetiva alguns desses fatores nesse artigo/vídeo.

Não sei se você já ouviu falar, mas as normas internacionais nasceram a muitos anos atrás, precisamente no início dos anos 70. Contextualizando, a década de 70 foi uma época de grandes mudanças no mundo. O processo de globalização adquire força com a popularização dos programas de televisão, o que de certa forma contribui muito para o comércio com o aumento das importações e exportações. Com a Tv as pessoas começam a acompanhar o que acontece do outro lado do mundo, e com a importação conseguiam ter acesso a objetos e mercadorias vindas de vários lugares ao redor do mundo.

O mercado de capitais também é influenciado por esse fenômeno de globalização do comércio e como consequência, em 1973, 9 países se juntaram em Londres e criaram o IASC, International Accounting Standard Committee com objetivo de criar um padrão contábil internacional que facilitasse as movimentações do mercado de capitais entre os países.

Nessa época, cada país tinha sua própria norma contábil e a mais famosa e também mais robusta eram as normas contábeis norte-americanas, o US GAAP. US GAAP era a norma contábil mais famosa e também a mais atualizada em relação às práticas comerciais daquela época por uma razão muito simples: A economia americana vivia um grande momento no final dos anos 60 e início dos anos 70. Os Estados Unidos, nos anos posteriores ao término da Segunda Guerra, estimulavam os demais países “vendendo” seu projeto de “American way of life”. Essa euforia alcançava vários países que “compravam” o discurso americano ao redor do mundo. Essa ideologia americana e seus pilares podiam ser claramente percebidos durante todo o período da Guerra Fria, através dos noticiários, das músicas e principalmente, por meio da indústria cinematográfica americana que propagava o modelo do ideal capitalista.

Diante de todo esse pano de fundo, o US GAAP era sim a prática contábil mais moderna na época, tanto é que foi dela que a famosa Lei 6.404 foi inspirada em 1976 e acabou sendo uma enorme revolução para o Brasil à época.

Como comentei, em 1973 o IASC foi fundado e foi conseguindo novos países adeptos ao longo dos anos mas ainda não tinha o apelo suficiente para se tornar uma linguagem contábil com aderência global conforme planejavam seus idealizadores.

Com a crise do petróleo a partir da metade dos anos 70 em diante, o que levou os Estados Unidos a uma grande recessão, a economia americana tem um revés importante, ao mesmo tempo que economias de países como o Japão e Alemanha, na época Alemanha Ocidental começavam a crescer. Em 1989 cai o comunismo na Europa com a queda do muro de Berlin, marcando o desenvolvimento e ascensão de grandes movimentos sociais e econômicos em toda a União Européia, tais como o livre comércio, a livre circulação de pessoas pelos países europeus e o enorme incentivo ao desenvolvimento do mercado de capitais. Diante desse cenário, o IASC crescia como um órgão de normalização contábil internacional do setor privado que a medida que a União Européia se desenvolvia, conseguiu ganhar respeito e apoio dos órgãos reguladores dos principais mercados e governos europeus, além dos preparadores e usuários de demonstrações contábeis ao redor do mundo. O IASC era o único órgão competente de normatização contábil internacional no final dos anos 90, momento esse em que a União Europeia se debruçava sobre a criação de um mercado de capitais interno e a Comissão Europeia estava em busca de outras alternativas ao US GAAP como norma contábil para as empresas que tinham ações negociadas em bolsa. Uma proposta-surpresa da Comissão Europeia, emitida em 2000, estipula que todas as empresas de capital aberto da União Européia, deveriam aderir às normas internacionais até 2005, proposta essa que chamou a atenção mundial e outros países começaram a considerar seriamente o IASC como órgão global de normalização contábil. Com essa aceitação de suas normas, em 2001 o IASC passou a se chamar IASB, International Accounting Standard Board e iniciou um jogo de elevadas apostas no desenvolvimento de um padrão contábil internacional. Consolidavam-se através de revisões técnicas das existentes IAS, International Acocunting Standard, normas até então emitidas pelo IASC e nasciam as IFRSs, normas que passariam a ser emitidas pelo novo IASB. O conjunto das IAS, somadas às novas IFRSs formavam a partir de então as novas normas internacionais de contabilidade.

Ainda no ano de 2001, alguns escândalos contábeis e financeiros, tais como o caso Enron e Worldcom, marcaram de forma negativa o mercado de capitais norte-americano e também colocaram em cheque a robustez das práticas contábeis norte americanas. Com a crise que enfrentava o US GAAP, seu principal concorrente, as normas internacionais de contabilidade se fortaleciam e ficavam cada vez mais evidentes. Um outro fator que estimulou ainda mais sua aderência na Europa, seu berço, foi a criação de uma moeda única para toda a comunidade europeia no ano de 2002, o EURO.

Veio o ano de 2005 e as normas internacionais foram implementadas por todas as companhias abertas em toda a União Européia. O reflexo disso foi a grande facilitação das transações no mercado de capitais europeu. Para demonstrar essa evolução e impactos causados por toda essa mudança, podemos olhar os negócios no mercado europeu de várias formas, um deles, é ver o quão benéfico isso foi para a Europa, verificando o volume de transações de M&A (aquisições, fusões e compra de participação societária de empresas). Para tal, podemos verificar os gráficos dessas transações elaborados pelo “Institute of Merger and Acquisitions and Alliances” -o IMAA. Veja no gráfico, que a partir de 2005, o volume de transações tem um significativo aumento e sem dúvidas, ter uma linguagem contábil única falada em toda a Europa, foi primordial para essa evolução. Note também que em 2007 a Europa e também todo o mundo alcançaram patamares recordes de transações de fusões e aquisições de empresas. Será que esse evento econômico tem algo a ver com uma grande mudança contábil que ocorreu no Brasil no final de 2007 ? Isso é assunto para um outro artigo/vídeo.

 

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